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Decifra-me ou devoro-te: a doença e seus enigmas

Psicóloga Mayla Cosmo (CRP 05/25188)
Doutoranda em Psicologia Clínica (PUC-RJ) e psicóloga hospitalar da Clínica São Vicente.

O enigma da esfinge foi a metáfora que escolhi para falar dos enigmas das doenças, ou seja, da multiplicidade de determinantes envolvidos nos males do corpo e que estão além da causalidade orgânica. Assistimos nos séculos XX e XXI  ao avanço da medicina a passos largos, contribuindo para a cura de várias doenças, para o aumento da qualidade de vida em portadores de doenças crônicas e para o aumento da expectativa de vida, entre outros benefícios. Apesar de toda sua cientificidade e objetividade, os médicos deparam-se muitas vezes com fenômenos inexplicáveis, tais como: doenças sem causa conhecida, recuperação surpreendente do paciente quando o prognóstico é reservado, piora súbita quando a cura era esperada, etc. Além disso, os profissionais de saúde também encontram outros desafios como promover a adesão ao tratamento proposto, mudar hábitos e estilo de vida visando uma melhor recuperação e prevenção de doenças, lidar com a família do paciente, sem falar nas dificuldades sócio-econômicas e culturais.

Há pouco tempo li um artigo que falava sobre a individualização dos tratamentos médicos, principalmente em oncologia, possível pelas descobertas da genética. A chamada “medicina personalizada” ajuda a entender porque dois indivíduos com a mesma doença respondem de formas diferentes a uma mesma droga. Isso é atribuído, em parte, à constituição genética de cada um, além de outros fatores, como metabolismo e estilo de vida. Esse novo momento da medicina marca a importância da singularidade. E é exatamente esta singularidade que se desvela na doença. Somos seres únicos e por isso é necessário a compreensão do significado biográfico do adoecimento, ou seja, é preciso considerar o momento de vida, a personalidade do doente, eventos estressantes, contexto sócio-cultural, rede familiar, além dos hábitos e fatores genéticos e hereditários.

A medicina psicossomática contribuiu para este movimento pois busca compreender a existência humana, a saúde e a doença em sua totalidade, assumindo uma visão integral. Os estudos sobre estresse vieram corroborar essa inter-relação, ao demonstrar como o corpo reage para se adaptar a um evento estressante – hormônios são liberados e afetam os órgãos. Podemos confirmar isso em várias situações, tanto positivas como negativas. Por exemplo, quando estamos apaixonados e vamos ao encontro da pessoa amada, sentimos o coração bater mais rápido, a mão suar, as pernas tremer. Quando estamos tristes, sentimos um nó na garganta, o peito apertado, um vazio no estômago. Isso mostra a relação mente-corpo. Entretanto, se um organismo é submetido continuamente ao estresse, ele entra na fase de exaustão e fica mais vulnerável ao aparecimento de doenças, tais como: úlcera péptica, hipertensão arterial, artrites e lesões miocárdicas.

Quantas vezes sentimo-nos mal e não paramos? Uma dor de cabeça, uma gripe, um pico de pressão, podem ser um alerta do corpo para algo que não está bem. O estresse faz parte do viver contemporâneo e a forma como reagimos a ele é que vai fazer diferença. Ao deparar-me, por exemplo, com a demissão do emprego, posso escolher ficar deprimida ou ir atrás de novas oportunidades. Obviamente as escolhas e formas de enfrentamento têm a ver com o estilo de personalidade de cada um e com o contexto mais amplo.

Ao atender pacientes no hospital ou no consultório com doenças físicas escuto constantemente um sofrimento “para além da doença”, que pode ter contribuído para seu aparecimento bem como pode comprometer sua evolução. Não raro pacientes que sofreram perdas recentes de pessoas queridas recorrem aos serviços de Emergência hospitalar com dor no peito e falta de ar. Em outras situações, encontramos pacientes que não aceitam sua doença, não aderem ao tratamento e acabam sofrendo inúmeras complicações médicas; ou mesmo deprimem (muito comum nos casos de câncer), não conseguem mais enfrentar o tratamento e morrem (já foi comprovado que a imunidade diminui quando estamos estressados).

O que quero chamar atenção neste artigo é para o que precisa ser desvendado e revelado. Acredito que as doenças trazem uma mensagem do nosso corpo e, se estamos disponíveis para escutá-la, muitas mudanças podem acontecer em nossas vidas. Já assisti pacientes mudarem radicalmente seu estilo de vida, de emprego, de relacionamento a partir da situação de doença. Muitas vezes eles estavam infelizes, frustrados e insatisfeitos, mas não se davam conta até adoecer. Nosso corpo, alma e mente precisam ser tratados com carinho e cuidado. E se enxergamos isso genuinamente temos a possibilidade de nos reposicionar no mundo e escrever uma nova história.


Artigo publicado na Revista Menorah (no 629) em fevereiro de 2012

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